20 Outubro 2021
pt | en Contactos | Mapa do Site
Página Inicial » Novidades » Francis Roux (1930-2014)
Francis Roux (1930-2014) Versão para impressão Enviar por E-mail
1 Faleceu o Professor Francis Roux, destacado ornitólogo e profundo conhecedor das aves marinhas das Ilhas Selvagens.

 Francis Roux, biólogo e especialista em aves, trabalhando no Museu Nacional de História Natural de Paris, veio pela primeira vez à Madeira em 1963, a fim de integrar, conjuntamente com o seu colega Christian Jouanin, a expedição científica às Ilhas Selvagens organizada pelo Museu de História Natural do Funchal.

Dessa expedição resultaram em 1965 e 1966, 2 trabalhos científicos, sobre as cagarras e os calcamares. Dessa data e até 2002 resultaram mais de 20 trabalhos científicos sobre as aves marinhas das Selvagens, muitos dos quais publicados no Boletim do Museu Municipal do Funchal e nos quais Francis Roux foi co-autor.

Francis Roux (e C. Jouanin) não teve apenas uma grande importância no estudo científico das aves marinhas das Selvagens. Efetivamente o contacto deste investigador com outro dos participantes da expedição de 1963, Paul Alexander Zino, teve um enorme impacto na vida futura daquelas ilhas. Efetivamente foi a partir deste contacto que P. A. Zino se entusiasmou pelas Selvagens e pela ornitologia, o que veio a ser crucial para a preservação daquelas ilhas, que com certeza não seriam hoje alvo de distinções internacionais, não fora o seu abnegado interesse. A partir de 1967, altura em que P. A. Zino construiu a sua casa na Selvagem Grande e durante os 30 anos seguintes, Francis Roux, Christian Jouanin e mais tarde Jean-Louis Mougin, passaram a se deslocar anualmente às Selvagens para estudar as aves marinhas, em particular as cagarras. Esta influência científica exerceu-se também sobre Francis Zino, que hoje continua os trabalhos ornitológicos iniciados nas Selvagens em 1963.

Num plano mais pessoal, Francis personificava a calma. A sua postura, por vezes ligeiramente aristocrática, não o impedia de irradiar uma enorme simpatia. Ficaram-me gravadas as inúmeras conversas que tivemos no meu gabinete no Museu, nas vésperas das idas para as Selvagens ou logo após o seu regresso das ilhas e antes do regresso a Paris. Nesta cidade, Francis foi o responsável por uma das mais interessantes experiências que tive. Estando eu de passagem por lá, levou-me a ver a Grande Galeria do Museu de História Natural. Não a atual, mas a original, que na altura já estava encerrada ao público a aguardar a sua transformação na atual Grande Galeria da Evolução. Durante mais de duas horas deambulei só por entre as vitrines apinhadas de espécimes, maravilhado com toda aquela riqueza da História Natural mundial. A eletricidade já estava cortada, pelo que a única luz existente era a que entrava pelas pequenas janelas nos pisos superiores, fazendo com que os raios solares atravessassem o imenso espaço de forma oblíqua, incidindo aqui e ali. Por momentos pensei que me daria de caras com o Barão Georges Cuvier ou o Conde de Buffon, pois respirava a mesma atmosfera que eles com certeza respiraram 200 anos antes! Num canto, Francis admirava silenciosamente o meu encanto. Fomos depois almoçar e passamos o resto do dia a falar de aves e das Selvagens.

Francis Roux ficou assim com o seu nome gravado a letras de ouro na vida e na história recente das Selvagens e o seu contributo científico foi decisivo para consolidar a Reserva Natural. Para além de se perder um brilhante cientista perdemos também um grande amigo.

Francis Roux era Professor Honorário do Museu Nacional de História Natural de Paris e Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito. Faleceu na sua residência em Mouliherne (Maine-et-Loire), realizando-se as cerimónias fúnebres na intimidade familiar no passado dia 26/6/2014.

 

Manuel Biscoito
Conservador do Museu de História Natural do Funchal

 

Galeria de Fotos


 

 
Mapa do Site | Sugestões | Condições de utilização | Privacidade | © 2021, Municipio do Funchal Facebook | RSS